Uma faceta de Dom Quixote fidalgo

13/09/2023

Num vilarejo da mancha dos tempos de antigamente vivia em uma fazenda um fidalgo decadente. que dos seus outros vizinhos era em tudo diferente. Sem jamais compartilhar interesses com seus pares; repetia relutante as rotinas regulares. Se mostrando entediado entre bailes e jantares... Enfim. Vestia trajes decentes mas modestos no valor. Tinha um velho pangaré e um galgo corredor. O que mais o comprazia era ser madrugador.

Seu repasto eram ovos com torresmo na farinha. Carne, queijo e batata vinham sempre da cozinha. Nos domingos escapava com um caldo de rolinha. Dizem que este manchego com sua vida discreta por uma tal de Aldonza nutria paixão secreta. Sem cupido nunca ter acertado nela a seta. Em suma convivia em sua casa com sua jovem sobrinha. Uma velha empregada prestimosa e sozinha. E um moço responsável por tarefa comezinha.

Dessa forma era um cavalheiro magro beirando cinquenta anos começando a mostrar nos atos cotidianos toda aquela rabugice natural dos veteranos. Seu provável sobrenome era Quixana ou Quezado. Mas importa é sabermos que o fidalgo mencionado tinha tempo até sobrando pra ficar desocupado. Certo é que a gerência da fazenda esquecia e perdia o interesse em caçada ou pescaria. Quando começava a ler livros de cavalaria.

Fascinado por novelas de cavaleiros andantes tinha livros a granel atulhando as estantes. Onde estavam reunidos traças, grifos e gigantes. E por sempre aumentar o seu tempo com leituras, cada vez gastava mais em cadernos e brochuras. Precisando de mais dinheiro pra arcar com as faturas... Com as grandes coleções consumindo sua renda. Resolveu por desatino demarcar e por à venda. Para quem pagasse mais partes do valor da sua fazenda. Assim sendo a sobrinha se alegrava sempre que chegava o dia de ver o seu velho tio indo pra barbearia. Ou no rumo da igreja pra ouvir a homilia.

Acontece que o fidalgo com o cura e o barbeiro; sendo assim só falava em romances pra ficar o dia inteiro. Discutindo qual seria o mais nobre cavaleiro. Por um tempo cogitou escrever sua novela. Com gigante, feiticeiro e também uma donzela. Sem faltar o cavaleiro para ser vassalo dela. Seu intento era mostrar triunfando em campanha um guerreiro até maior que El Cid da Espanha. Mas trocou a narrativa por ideia mais estranha. Por encher sua cabeça com tanta coisa que lia e ficar toda semana trocando noite por dia... Pouco a pouco se deixou mergulhar na fantasia.

De tanto ler e reler novelas e coisas tais foi ficando convencido que elas eram reais. E a fantasia dos fatos já nem separava mais. A empregada servindo a farinha com torresmo, certa feita o escutou dizendo para si mesmo: – Na condição de fidalgo eu estou vivendo a mesmo! Ele ainda prosseguiu dizendo em sua loucura: – Quero ser um paladino indo atrás de aventura. E vou me tornar famoso por meus atos de bravura!

Por outro lado a sobrinha igualmente deparou com o seu tio de pé em cima da cama num completo desvario. Quase não acreditando nas coisas que ela viu. Empunhando o seu bastão qual se fosse uma espada, dava golpes na parede deixando ela riscada. Ela viu o destrambelhada mas não entendia é nada. Foi não foi ele dizia... Um e outro disparate: – Já deixei quatro gigantes derrotados em combate. Mas não é com o cansaço que um soldado se abate! Foi então que decidiram retirar do seu alcance, todos livros com o tema de novela ou de romance. Calculando que depois não teriam outra chance.

Todavia elas ficaram sem saber o que fazer. Quando ele sorrateiro começou a se esconder, sempre com a intenção de continuar a ler... * Enfim.. Pontuação alterada... E alguns acréscimos de palavras executados por esse conteudista avoado nerudianas e infonautas 2ooe0nze. Panta rhei babys...